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Da Semente ao Charuto: Como se faz um charuto
Por Celso Nogueira

Tudo começa nas vegas, as fazendas especializadas em tabaco. A referência mundial é o sistema utilizado em Cuba, responsável pelos melhores fumos do planeta. Não só as sementes e o terroir cubano são superiores – o país detém conhecimentos insuperáveis em termos de cultivo e produção.

 

Superioridade cubana

Planície de Pinar del Río - Cuba

Um dos motivos que torna os charutos cubanos os melhores do mundo é o microclima da ilha. As características do solo, da temperatura e do ar são extremamente particulares. Cada região de cultivo produz um tipo diferente de tabaco. A província de Pinar del Rio é a maior produtora de fumo, em especial na região de Vuelta Abajo, uma área de cerca de mil hectares onde encontra-se o subdistrito de San Luis e San Juan y Martínez. O banco de sementes do governo controla o estoque entregue pelas empresas produtoras e redistribui as sementes para que cada produtor tenha a exclusividade do tipo de fumo que cultiva.

Semeadura

Os campos de tabaco costumam ser planos, para que as sementes não sejam levadas pela água das chuvas. O primeiro passo é o plantio em sementeiras cobertas com pano ou palha, para proteger as sementes da luz direta do sol. Esta cobertura é gradualmente retirada à medida que começa a germinação, e após cerca de 35 dias as lavouras são pulverizadas com pesticidas. Em seguida as mudas são transplantadas para os campos de tabaco, geralmente na segunda quinzena de outubro. Os campos são irrigados por baixo e as folhas molhadas tanto pela chuva e pelo orvalho da manhã.

A planta

A planta do tabaco pode possuir até trinta folhas e alcançar três metros de altura. Para classificação das folhas, a planta do tabaco possui três principais áreas: a parte de baixo, que chama-se “Livre Pé”, e produz folhas do tipo volado, importantes para a combustão, com alto teor de nicotina, sabor leve e ligeiramente aromáticas; a parte do meio, que se chama de “Centro Pé”, produz folhas grandes, do tipo seco com aroma de média intensidade, bem equilibradas; e a parte de cima, que chama-se de “Corona”, produz folhas menores, de sabor e aroma encorpados, do tipo ligero. A classificação não se aplica a tabacos para capa.
Após o corte, a planta se revigora e nasce um novo caule. Por isso, dependendo da saúde da planta, pode haver até 5 cortes. As flores são removidas manualmente (mais de 50 por pé), no processo chamado desbotoamento, para dirigir a força vital às folhas.

Capas

Conforme crescem as folhas, brotos aparecem no topo. Estes têm de ser retirados à mão para evitar plantas de baixa estatura e insuficiente crescimento foliar. A qualidade da folha de envoltório é muito importante para qualquer charuto. Existem tipos especificamente utilizados para fornecer capas, como Connecticut e Corojo. Estas plantas são sempre cultivadas sob mantas de gaze sustentadas por altos postes de madeira, que as protegem e impede que engrossem, como resposta protetora à luz solar. Outra técnica, chamada tapado, também podem ser usada para cobrir as plantas para fazer a folha permanecer lisa.

As folhas para capa, cultivadas sob cobertura são classificados por cores:
ligero (luz)
seco (seco)
viso (brilhante)
amarillo (amarelo)
Medio Tiempo (meia)
quebrado (quebrado)

 

Capote e miolo

As folhas que são cultivadas diretamente ao sol, para capote e bucha, são divididas em volado, seco e ligero. As folhas da parte superior da planta (ligero) têm um sabor mais forte a partir do meio elas são mais leves (seco), e as folhas da parte inferior (volado) são usados para auxiliar a combustão.

 

 

 

Blend

Para fazer um charuto de qualidade os vários tipos são misturados, juntamente com uma folha de capa adequada, em uma proporção especial para dar um charuto leve ou de sabor encorpado. Ele também garante que o charuto vai queimar direito. Grandes, médias, pequenas e são classificados pela condição física. Folhas insalubres ou quebradas são utilizadas para charutos feitos à máquina. Se todas as folhas são boas, cada planta de capa pode envolver 32 charutos. A condição e qualidade das folhas da capa é importante para a aparência atraente de um charuto, assim como para o aroma e o sabor.

Cura

Os pacotes de folhas são então levados para um abrigo. A temperatura e a umidade nesses galpões são cuidadosamente controladas, abrindo e fechando as portas em ambas as extremidades para dar conta das mudanças de temperatura ou de precipitação. As folhas são deixadas para secar por entre 45 e 60 dias, dependendo do clima. Durante este período a clorofila verde nas folhas transforma-se em caroteno, marrom, dando-lhes a cor característica.

Fermentação

Os maços de folhas são levados para casas de fermentação e colocado em pilhas de aproximadamente três metros de altura, cobertas com juta. O calor se desenvolve, mas a temperatura deve ser observada cuidadosamente para que não exceda 92 graus F durante os 35 a 40 dias que as pilhas são deixadas intactas. As folhas assumem uma cor uniforme.

Separação das Folhas

As folhas são então classificadas. Cada folha é cuidadosamente examinada e classificada. Folhas defeituosas são retiradas. As folhas, em seguida, retornam à área de fermentação. A segunda fermentação se inicia nas folhas úmidas. A temperatura no interior não deve exceder 110 graus F por cerca de 60 dias. Devido ao processo de fermentação, o charuto de tabaco é muito mais baixo em acidez, teores de alcatrão e de nicotina em comparação ao tabaco do cigarro, o que o torna muito mais saboroso..

 

Produção

Chega finalmente o momento para que as folhas são enviadas para as fábricas ou armazéns para a produção de charutos. Nas fábricas elas são molhadas para recuperar a maleabilidade.

Classificação

Entre as fermentações, as folhas são separadas de acordo com a cor (entre castanho claro e marrom escuro), o formato, a espessura e a resistência. As folhas destinadas aos charutos Cohiba passam por três fermentações, e as demais por duas, via de regra.

 

Montagem

Os torcedores elaboram os charutos manualmente. Preparam o miolo torcendo e agrupando as folhas. Depois, colocam em formas diferenciadas e prensam por uma hora. Cada profissional pode fazer mais de 100 unidades por dia. O charuto finalmente recebe a capa, feita de uma única folha de tabaco. Uma das pontas é selada com uma goma vegetal incolor e inodora. Depois ele é guilhotinado de acordo com seu tipo e segue para o controle de qualidade manual que verifica tamanho e a espessura. A maioria das fábricas utiliza também uma máquina que verifica se o fluxo está correto, eliminando os travados.

 

Como ferramentas os torcedores usam apenas:
1. Tábua de madeira para apoio do charuto
2. Chaveta - faca para cortar as folhas
3. Casquilho - cortador circular, que corta um círculo na folha de tabaco para fazer o arremate da parte superior
4. Cola vegetal natural insípida e incolor
5. Cepo – gabarito para checar o comprimento e o diâmetro do charuto

 

Seleção

Para harmonizar os aromas da capa e do miolo, os charutos descansam em caixas de cedro por cerca de quatro semanas, chamados escaparates. Então são separados de acordo com suas matizes para que cada caixa tenha as mesmas cores. Em cada charuto é colocado um anel de identificação, a anilha. Segue para a caixa, vai para a tabacaria e chega ao consumidor, pronto para ser apreciado.

Celso Nogueira

 

 

O Segredo das Mãos
O artesanato dos Charutos Brasileiros


Conheça melhor o artesanato dos charutos brasileiros premium
Por Giedre Moura

As folhas de fumo cultivadas no Recôncavo Baiano dão origem a caros e cobiçados charutos. O segredo da alta qualidade, além do solo fértil, são as delicadas artesãs, que, em vez de tentar a vida em Salvador, eternizam o ofício aprendido com as mães e avós


Por ali a Revolução Industrial não passou, muito menos a tecnológica, e nem sequer se dispõe de ferramentas para aumentar a produtividade. Há quem aposte que, justamente por isso, a qualidade não se perdeu. O cheiro do tabaco é forte, o trabalho é lento e minucioso e ao final do dia é possível observar que as pilhas de charutos que saem das mãos de grupos de mulheres são uniformes, nunca iguais. No mundo da charutaria de alta qualidade não há espaço para mecanização e a mão-de-obra exclusivamente feminina sabe disso. Estamos falando de uma fábrica cubana? Não, é um pouquinho mesmo de Brasil.

O cenário que remete a tempos antigos está cravado na região do Recôncavo Baiano. Em uma das mesas de madeira está Rosália Silva, de 48 anos, na sede da fábrica Menendez & Amerino, na cidade de São Gonçalo dos Campos, a 100 quilômetros de Salvador. Rosália é sinônimo de controle de qualidade. É ela quem verifica charuto por charuto, lote por lote, para selecionar as 25 unidades que vão compor uma caixa de marcas como o Dona Flor.

Na fila de análise está o lote Marilúcia. Não, não é outra marca, mas sim o registro da trabalhadora que o confeccionou. As artesãs, depois de transformar folhas secas em charutos, anotam seu nome e deixam o lote para o crivo de Rosália. “Se encontrar algo fora do padrão, eu sei pra quem devolver”, revela a artesã das folhas que, pela larga experiência, sabe exatamente o que os apreciadores de charuto esperam ao abrir uma caixa. É simples, mas funciona. A cada 450 charutos, apenas um é barrado no controle de qualidade. A informalidade e a quase familiaridade observadas no interior da fábrica não tiram a hierarquia e a liderança: “As mulheres que trabalham na produção não podem reclamar comigo caso algum charuto precise ser refeito. É preciso sempre muito capricho, e essa é a minha função. Todas respeitam”, explica Rosália.

A supervisora é uma das 90 empregadas da fábrica, em cuja produção só mulher tem vez. Além do capricho, a presença feminina tem a ver com a tradição, desde os tempos em que charutos eram enrolados nas coxas das índias, desde os tempos em que o tabaco era utilizado como moeda na compra de escravos. E quando o assunto é charuto, ensinam os cubanos, a tradição pode ser o segredo do sucesso.

Os vínculos com a ilha, aliás, são claros no Recôncavo. A Menendez & Amerino nasceu da união do baiano Mario Amerino Portugal com o cubano Félix Menendez. A dupla trabalha há mais de cinco décadas com os charutos. Como e quando os pés de tabaco chegaram à Bahia não é certo, mas o fato é que a adaptação criou uma matéria-prima local e oportunidades de trabalho. Assim como em Cuba, a planta manhosa precisa de um microclima ideal para dar origem a folhas longas, inteiras, sem quebras, indicadas para as capas dos charutos. O relevo, a fertilidade do solo, chuvas amenas e regulares, o Recôncavo é a Pinar del Rio brasileira. A região de Pinar, em Cuba, produz as folhas que dão origem aos caríssimos Cohiba, Monte Cristo e Romeu & Julieta.

Mas não são Menendez ou Amerino os pioneiros na produção baiana de charutos nem na idéia de empregar mulheres. Em 1873 Geraldo Dannemann veio da Alemanha e deu início à primeira produção de charutos do Recôncavo, onde a fábrica, mesmo após sucessivas fusões, permanece em atividade. Se na Menendez o carro-chefe é o Dona Flor, na Dannemann a vitrine vem do Artist Line e, sob chuvas, ventos e terra perfeitos, as melhores artesãs são selecionadas e nasce o cobiçado Artist Line Reserva.

A presença da mulher é importante também no cultivo, plantando, colhendo e depois comandando um processo cuidadoso de secagem, classificação e fermentação pois as folhas precisam ser sobrepostas para ressaltar sabores e aromas típicos das qualidades Mata Fina e Mata Norte, cultivadas em cidades como Cruz das Almas, também do Recôncavo.

Nas fábricas as charuteiras são trabalhadoras em regime de carteira assinada, nas plantações as relações contratuais variam. Os produtores tanto mantêm campos próprios como compram as folhas de tabaco de famílias e cooperativas, muitas delas criadas a partir de projetos de incentivo das próprias fábricas carentes de mão-de-obra de boa qualidade.

Logo cedo as mulheres chegam para o cultivo, ora plantando, ora indo e vindo com as folhas que acabaram de cortar de forma cuidadosa, que serão penduradas e secas em grandes galpões. Nesse momento a presença do homem pode ser notada. Com tetos altos, é preciso fazer “escaladas” para atingir a altura ideal de secagem, e ali o tabaco permanecerá em busca de cor e textura ideais.

O tabaco já viveu períodos de ouro. Em meados do século passado chegou a uma produção anual de 250 milhões de unidades. No final dos anos 1990 as fábricas voltaram a investir nas lavouras e, com a desvalorização do real frente ao dólar na ocasião, o mercado local venceu o preconceito e começou a conquistar novos apreciadores. Foi aí que os fabricantes se aproximaram dos lavradores para treinar, fomentar e, por fim, comprar a produção. Só a Dannemann conta com 300 produtores parceiros.

O fumo, caprichoso, tem várias manias. No campo, as mulheres revelam que a folha da parte baixa do pé tem sabor diferente da folha da parte alta, e é da mescla que surge o sabor do charuto. O processo continua na fábrica, pois, na hora de montar, as folhas não são pegas de forma aleatória; a mistura de tipos de folhagem é outro segredo desse negócio secular e artesanal.

Fontes:
Revista do Brasil número 19
http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/19/segredo-das-maos/view
http://www.guantanamera.org.br/charutos.htm

 
   
 

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